Após um demorado processo de divórcio e tendo sido obrigado a vender o
apartamento na capital e dividir seus bens, ele foi forçado a adotar uma vida
mais simples. Como seu trabalho como programador lhe permitia o home office
e pensou que a mudança de ares lhe faria bem, Gerson se mudou para uma casa
modesta no interior com o intuito de reduzir seu custo de vida e se adequar à
nova realidade.
Os primeiros dias na nova moradia foram os mais difíceis de se adaptar,
a solidão e a mudança de um apartamento em um condomínio para uma casa em rua
pública foram complicadas a princípio, poucos móveis e pouca coisa o que fazer,
mas todo seu tempo livre acabou lhe rendendo um novo hobby: observar o antigo
casarão do outro lado da rua.
A construção que fascinou Gerson tinha um estilo colonial, mas não
estava no seu ápice de beleza ou de conservação. Alguns aparelhos de
ar-condicionado, mesmo sendo antigos, contrastavam com as janelas de folhas
duplas de madeira já descascadas devido às intempéries do clima, dando um
visual anacrônico ao conjunto arquitetônico.
Gerson não se via com coragem de sair e conhecer os novos vizinhos,
ainda estava digerindo sua recente separação e se recolhia aos seus próprios
pensamentos, mas sua curiosidade lhe permitiu conhecer a rotina da casa a
frente. Ele havia montado seu escritório no menor quarto de sua casa, aquele
com a janela voltada para o jardim e, por consequência, com vista direta para o
casarão.
Começou a observar a casa em busca de algum movimento, mas sempre que
olhava as janelas estavam fechadas ou as cortinas encobriram o interior em
proteção a qualquer olhar curioso que pudesse se interessar. Após algum tempo,
Gerson já havia ampliado sua dedicação à observação da moradia misteriosa.
Sempre que tinha algum tempo saía para a rua e, pouco a pouco,
cumprimentava os vizinhos, aguardando alguma brecha para inquirir sobre o
morador misterioso. Ia à padaria, mercado, açougue sempre a pé. Eram as
vantagens da cidade pequena, ele pensava no tempo e no combustível que perdia
na capital.
Todos com os quais Gerson conversava demonstraram incrível afeto pelo
casarão e pelo seu morador, alguns o chamavam de Sr. Zéfo, mas ninguém nunca
confirmou que o tinha visto fora de casa ou que tenha saído para ir a qualquer
comércio.
Às vezes, Gerson saía à noite para uma “caminhada” onde aproveitava para
observar o bairro e conhecer a vizinhança. Nessas caminhadas se surpreendia com
a quantidade de cadeiras e espreguiçadeiras que eram postas nas calçadas, ainda
mais nos dias quentes; e nas numerosas crianças brincando por todos os
quarteirões. Todos pareciam extremamente simpáticos e prestativos.
Gerson sempre procurava sair em horários diferentes e fazer percursos de
duração variada, então ele pôde observar que à noite, apenas a luz da sala, da
cozinha e do quarto podiam ser vistas acesas. Por vezes, observou uma pequena
ventarola iluminada ao lado da janela do quarto, que Gerson deduziu ser o
banheiro da suíte.
Notou que todas as quintas-feiras pela manhã, eram feitas entregas de
mercado e também o dia que o lixo era retirado. O entregador mesmo colocava o
lixo para fora, nunca o morador misterioso.
Passados alguns dias, Gerson já dormia pouco e dedicava todo seu tempo
livre (e às vezes também algum do tempo que ele deveria dedicar ao trabalho) a
observar a casa e sua movimentação. A cada quinze dias um luxuoso sedã preto
chegava e dele descia um homem de cabelo grisalho e de roupas muito elegantes,
de quando em quando, social, por vezes casual.
Esse homem, que visitava a casa em sábados alternados, permanecia por lá
por algumas horas e depois entrava no carro e partia. Na segunda-feira seguinte
à visita do homem dos cabelos brancos, algum prestador de serviço
aparecia: um jardineiro para impedir que as ervas daninhas se alastrassem
demais, alguém para repintar algum pedaço da casa ou fazer alguma manutenção.
Pessoas essas que esporadicamente passavam porta adentro.
Numa quinta-feira, Gerson não conseguiu mais se concentrar em seu
trabalho (que já não vinha desempenhando corretamente há algumas semanas).
***
Gerson observou a chegada do entregador e logo depois dele colocar o
lixo para fora e voltar para a van e sua rota de entregas, Gerson adentrou, sem
problema algum, o portão de grade de ferro de um metro e sessenta, se dirigiu
ao alpendre e bateu a porta da frente vigorosamente.
— Quem é? — Gerson ouviu uma voz distante vinda do interior da casa.
— Esqueci meu celular aí dentro!
— Que?
— Eu esqueci meu celular aí dentro! — Gerson repetiu.
A tranca automática da porta da frente fez um zumbido metálico e abriu.
Gerson entrou e, num piscar de olhos, já estava na sala da casa, cara a cara,
com o morador misterioso.
— Me perdoa. Me perdoa! Mas eu tinha que descobrir quem é você!
— Bem-vindo, Gerson. — Respondeu uma voz cansada e suave. — Só estava
tentando adivinhar quando iria fazer isso. Já descobriu quem sou eu ou é pura
curiosidade sobre quem seria o morador misterioso da cidade do interior? Sabe,
até hoje só tive esses dois tipos de visitantes curiosos.
— Hein?
— Eu moro aqui já faz algum tempo, quase todos me conhecem e sabem o que
faço e, mesmo assim, eles se mantêm discretos sobre quem eu sou e onde eu
moro.
Gerson, cerrou os olhos ferrenhamente tentando focar a visão e a memória,
mas não conseguiu reconhecer o homem.
— Sou eu: José Felipe de Alencar. — Ele fez uma pausa — J.F. de Alencar.
Zéfo para os íntimos e para a população local.
— Oh… Oh m-meu Deus! — Exclamou Gerson quando reconheceu o nome.
J.F. de Alencar, conhecido como o “Algoz dos Sonhos” pelos seus fãs, ele
era o maior autor de histórias de terror desde de Stephen King. Uma estrela
ascendente no universo do horror com seus livros traduzidos em diversos idiomas
pelo mundo e com algumas histórias já adaptadas para o cinema. Ele era uma
lenda reclusa que mesmo alguém que nunca tivesse lido um de seus livros já
teria, ao menos, ouvido seu nome.
— Ah! Um fã do meu trabalho! — Disse de Alencar com um abismal sorriso
sarcástico. — Sente-se, vamos! Fique à vontade. — Completou apontando para um
poltrona antiquíssima.
Gerson sentou-se desconfortavelmente e tentou manter uma compostura que
não estava preparando para demonstrar. Juntou as mãos e, as agitando
freneticamente, disse:
— J.F. de Alencar! Eu adorei “Assim na Terra como no Fel”! Um dos meus
livros preferidos de todos os tempos. — Gerson estava tremendo de emoção e
vergonha e não percebeu a aproximação de Alencar nem o taser que o escritor
carregava em uma das mãos.
***
Gerson acordou com uma dor aguda em todos os músculos do corpo e uma
queimação do lado direito do corpo, na altura das costelas. Ele enxergava tudo
embaçado, tentou se mover mas seus pés e mãos estavam atados a uma cadeira fixa
ao chão. Igual ao da pessoa a sua frente.
Seus olhos voltaram a enxergar, mas a dor nos músculos continuava. A
pessoa à frente de Gerson estava amarrada na cadeira com grossas tiras de couro
nos pulsos e nos tornozelos e era nítido marcas de queimadura por fricção das
amarras nos pulsos e tornozelos. Era um homem nu, com uma barba longa e
desgrenhada, assim como os cabelos. Um cheiro acre de suor, urina e fezes,
atingiu as narinas de Gerson de uma forma tão brutal que o fez esquecer dos
músculos doloridos momentaneamente.
Ele olhou com mais atenção e viu, preso à cabeça do homem desmaiado,
várias peças metálicas aparafusadas ao crânio do homem, esses parafusos presos
a fios, que por sua vez se estendiam para cima em um emaranhado colorido até o
que parecia ser a bocarra de algum tipo de máquina perversa.
A frieza alienígena da máquina fez Gerson voltar seu olhar ao corpo em
sua frente. O cheiro forte fez seus olhos se encherem de lágrimas. Viu um tubo
de alimentação preso ao pescoço cirurgicamente. Olhou para o abdômen e viu uma
bolsa de colostomia. As lágrimas de ojeriza pelo forte odor se converteram em
lágrimas de desespero quando Gerson reconheceu que seu destino seria o mesmo do
infeliz à sua frente.
Uma porta atrás e ao alto de onde Gerson estava se abriu e iluminou o
topo de uma escadaria. Ele reparou que não havia janelas onde quer que fosse
que ele estivesse. Passos delicados e precisos ecoaram suavemente pelo cômodo,
chegando cada vez mais perto.
— Como está se sentido, Gerson? — Era o Algoz dos Sonhos que acabara de
conhecer: J. F. de Alencar.
— S-seu des-desgraçado! Filhodeumaputa! FILHODAPUTA! Que você pretende
fazer?! — O corpo de Gerson se debatia violentamente preso pelas amarras na
cadeira, seu torso pulsando tão forte quanto seu coração desesperado.
De Alencar riu debochada e gostosamente preenchendo o cômodo como uma
nuvem tóxica de sádica satisfação. Gerson grunhiu de ódio e frustração.
— Ah, Gerson. Você deve estar imaginando quando você estará igual ao
nosso amigo Jeferson aqui — de Alencar indicou com os olhos azuis brilhantes o
corpo na outra cadeira. — Sábado receberei a visita de meu agente e
segunda-feira ele irá enviar alguém para lhe preparar. — Enquanto isso
permita-me demonstrar.
De Alencar pegou uma ferramenta parecida com uma chave de fenda e
começou a torcer e girar as conexões metálicas presas ao crânio do moribundo na
outra cadeira. Algumas ele girou em um sentido, outras no sentido oposto.
Algumas ele volta a girar um pouco mais, outras ele volta algumas voltas
dadas.
Ao fundo uma voz metalizada e robotizada começou a chiar como um rádio
sintonizando uma estação depois de um longo tempo procurando.
— Aranhas. — Disse a voz sem nenhuma entonação. — Muitas.Ouvidos.
Entrando. Dor.
O corpo na cadeira pareceu tremelicar. Gerson olhou mais atento e viu os
pelos do corpo se arrepiarem.
— Rasgando. Cócegas. Cérebro. Boca. Dor. — Continuou a voz metálica
monotonamente. — Fogo. Queima. Carne. Aranhas. Fogem. Corpo. Queima. Muitas.
Aranhas.
De Alencar se posicionou mais próximo à máquina e mexeu em algo que
Gerson não conseguiu ver e a voz metálica e monótona parou de soltar todas
aquelas palavras.
— Essa é minha Inteligência Artificial Interpretativa. Ela “traduz”
pesadelos. — De Alencar voltou a vista de Gerson, dessa vez segurando uma
seringa gotejante de um líquido transparente. — Agora se me der licença,
tenho trabalho de pesquisa para meu próximo livro.
Gerson tentou gritar, mas não tinha mais forças. Sua feição havia sido
tomada de lágrimas e soluços. O Algoz dos Sonhos injetou a agulha da seringa no
braço de sua nova cobaia sem que houvesse manifestação alguma de resistência.
De Alencar voltou para a máquina, ligou-a e começou a tomar anotações em um
bloco de notas que pegou de cima de uma parte da máquina.
— Inferno. Sofrimento. Eterno. — Continuou a voz robótica. — Ignis.
Mors. Tormentum. Imploro. Satanas.
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